“Precisamos ser desenvolvedores, não apenas seguidores de tecnologia”, diz Presidente da P&D Brasil
Rosilda Prates, presidente executiva da entidade, defendeu a importância de consolidar um ambiente institucional estável e favorável ao investimento em inovação no país
Diante de um cenário global marcado pela disputa tecnológica entre nações e pela crescente dependência de soluções importadas, o Brasil se vê diante de uma encruzilhada estratégica: investir na produção de tecnologia nacional ou manter-se como consumidor de inovação desenvolvida no exterior.
Realizado no SESI Lab, o encontro reuniu representantes do governo, da indústria e de instituições de ciência e tecnologia para discutir caminhos concretos para o fortalecimento da produção tecnológica nacional, com foco em políticas públicas, financiamento à inovação e desenvolvimento sustentável.
A abertura do evento contou com a participação de Edinaldo de Sousa, presidente do Conselho da P&D Brasil, e de Rosilda Prates, presidente executiva da entidade, que destacaram a importância de consolidar um ambiente institucional estável e favorável ao investimento em inovação no país.
Durante a abertura, foi reforçado que o seminário busca fortalecer o diálogo entre setor produtivo e formuladores de políticas públicas. A entidade também destacou o impacto direto da produção nacional no desenvolvimento econômico: quando a tecnologia é desenvolvida no país, cerca de 85% da riqueza gerada permanece no Brasil.
O debate se concentrou em um dos temas centrais para o desenvolvimento nacional: a soberania tecnológica. Sob mediação de Rosilda Prates, o painel reuniu autoridades como Ana Estela Haddad (Ministério da Saúde), Henrique Miguel (MCTI), Uallace Moreira (MDIC) e o embaixador Eugênio Garcia (MRE), além de representantes do setor produtivo, para discutir o papel da indústria nacional na construção de autonomia tecnológica e na defesa comercial.
O secretário de Desenvolvimento Industrial, Uallace Moreira, destacou a retomada da política industrial como eixo estruturante do desenvolvimento. “Ter uma política industrial no cerne do governo é fundamental. Isso não é ideologia, é concreto. Política industrial significa soberania nacional em todas as dimensões”, afirmou.
Ele também chamou atenção para os riscos da dependência tecnológica, especialmente no tratamento de dados estratégicos. “É inconcebível dados e informações estratégicas serem tratados por big techs. Isso não é soberania. Isso representa vulnerabilidade”, disse.
Já André Agatte, do Serpro, destacou o papel do Estado na proteção de dados e no desenvolvimento de infraestrutura digital. “Hoje, os dados são um dos ativos mais importantes da sociedade. O Brasil precisa garantir soberania sobre essas informações”, afirmou.
Segundo ele, a criação de uma nuvem soberana é parte desse processo. “Hoje já temos uma estrutura de nuvem de governo totalmente desconectada, que garante a proteção dos dados estratégicos do país.”
Desenvolvimento tecnológico
(Foto: Reprodução/Unsplash)
Outra discussão tratou dos mecanismos de financiamento e fomento às políticas industriais, reunindo representantes de instituições estratégicas como BNDES, FINEP, Banco da Amazônia e EMBRAPII. O debate destacou a necessidade de instrumentos financeiros mais robustos e previsíveis para estimular investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação no Brasil.
Roberto Schwartz, diretor de Crédito do Banco da Amazônia (BASA), destacou a importância da atuação do Estado no financiamento à inovação. “Não existe mudança de paradigma sem a atuação forte do Estado. Isso não precisa ter vergonha”, afirmou.
Ele também apontou desafios no acesso aos instrumentos disponíveis. “A empresa quer fazer, mas muitas vezes não sabe qual instrumento usar. É tanta oportunidade que falta um caminho claro”, disse.
Schwartz também ressaltou o papel do financiamento regional no desenvolvimento industrial. “Nos três primeiros trimestres do ano passado, o banco foi responsável por mais de R$ 7,5 bilhões em financiamentos no âmbito da Nova Indústria Brasil”, disse.
Segundo ele, a atuação do banco envolve diferentes frentes. “A gente financia a demanda, a oferta e a infraestrutura, que é essencial para estruturar cadeias produtivas e reduzir desigualdades regionais”, afirmou.
O painel também destacou a importância da continuidade das políticas públicas para garantir resultados de longo prazo e estimular investimentos em inovação.
Desenvolvimento sustentável
(Foto: freepik)
O desenvolvimento sustentável e os impactos do acordo Mercosul-União Europeia também foi debatido, com participação de representantes do Ministério do Desenvolvimento, do Ministério do Meio Ambiente, da CNI e do setor empresarial. A discussão evidenciou os desafios e oportunidades para a indústria nacional em um contexto de transição energética e exigências ambientais crescentes.
Ainda no período da tarde, novos cases de empresas associadas foram apresentados, reforçando o papel da inovação como motor de competitividade e crescimento econômico. Foram destacados os cases da Softex, Hardware.BR.BR, Intelbras, Landis+Gyr, Prysmian e Positivo Tecnologia.
Encerrando o seminário, o quarto painel discutiu o papel estratégico das compras públicas no fortalecimento das competências industriais brasileiras. Com a participação de representantes do Ministério da Defesa, do Ministério da Gestão e do MCTI, o debate destacou como o poder de compra do Estado pode ser utilizado como instrumento de estímulo à indústria nacional e à inovação tecnológica.
Crédito para investimento
(Foto: Imagem gerada por IA/O Brasilianista)
Os juros foram citados como um dos principais impeditivos para os investimentos gerais do setor, onde 23% das indústrias não pretende destinar recursos neste ano. “O percentual de empresas que não pretendem investir é elevado e reflete o cenário adverso que a indústria herdou do ano passado, principalmente por conta dos juros altos”, afirmou o gerente de Análise Econômica da CNI, Marcelo Azevedo.









































